Sueli é dez anos mais nova, quando comparada a mim. Em certos momentos, chego a sentir pena por estar casada com um homem sem tempo até para reclamar das circunstâncias diárias. Morena, alta e exatamente com três dobrinhas formosas na barriga. Nossa! Eu fico louco com as dobrinhas de Sueli! Agora ela cismou de querer fazer dieta, as mulheres cismam com coisas desnecessárias. As dobrinhas são sensuais, cansei de falar isso para ela. Eu quero mais é ficar gordo, cultivar uma bela barriga de chopp e assistir futebol enquanto admiro, no intervalo, minha beldade cozinhando um delicioso almoço dominical.
Assim que casamos, virávamos noites conversando sobre tudo. Colocávamos um bom disco na vitrola e apenas curtíamos todas as palavras que cada um despejava na sala escura. Isto não faz muito tempo: cinco anos atrás. Susu tem que decidir se terá filhos logo, estou ficando velho e os marmanjos do meu trabalho sempre mostram as fotos na carteira. Meu sonho sempre foi ter fotos na carteira.
“Este é o João, meu caçula. Garotão... Puxou o pai! Vai ser um grande jogador de futebol, flamenguista que só ele. Esta aqui? Suzana, meu camarada. Já viu olhos mais lindos que os dela? Iguais aos da mãe. Minha patroa caprichou na Suzana. O mais velho é Tiago. Só joga vídeo game, tenho que ensiná-lo a conquistar mulheres.”
Sempre achei que teria um filho gay, não sei o motivo. Quando era mais novo, sentava no telhado da casa de minha avó e idealizava todos os meus filhos: João, Suzana e Tiago. Nunca sequer conversei com minha mulher sobre ter filhos. Assim que ela abrir os olhos hoje proporei uma prática (...)
Péssimo pensamento! Se ela souber que pensei algo do tipo é capaz de cortar minha cerveja. Até que não seria má ideia; cortar minha cerveja me daria mais vontade de me impor. Sueli me domina. Adoro ser dominado. Deve ser porque fui criado só por mulheres, era o terror. Minha avó gritava feito uma bruxa velha e minha mãe quase arrancava minhas orelhas. Ainda bem que saí daquela casa assim que completei vinte anos.
Sueli vive me dizendo que eu tenho que voltar a falar com elas. Aliás, Sueli vive me dizendo muitas coisas. Esta mulher não cala a boca, por sinal. Não presto atenção em nada. Ela precisa emagrecer e comprar um pijama novo, puta que pariu! Passei cinco anos com essa mulher e ela nem sequer tocou no assunto “herdeiros”. O que estou fazendo com Sueli do meu lado esquerdo da cama? Não é nem de longe o tipo que imaginei para mim: fode mal, não sabe cozinhar, ronca e anda arrastando o pé.
Esta mulher adora me dar ordens implícitas. “Dirige até a padaria pra mim, Roberto? Você aproveita e compra a cerveja que gosta.” Quem disse que quero comprar cerveja? São nove da manhã, porra! Por isso que os marmanjos do trabalho reclamam muito das esposas. Bem que tentaram me avisar, mostraram os extratos do cartão de crédito e contaram casos desagradáveis. Sou teimoso, quis porque quis casar com Sueli. Agora estou aqui, de pijama azul pálido.
Eu vou pedir o divórcio assim que ela abrir os olhos!


