Eu acho que amo você. Não sei quantas vezes ensaiei esta confissão. Tentei de forma direta, fingi estar conversando normal e falar do nada... Até comecei a ler poemas – poetas sabem amar, ou, pelo menos, sofrer por amor.
Lá fui eu seguir os conselhos de Clarice Lispector. Não precisei de muito para perceber o quão difícil seria ter a alma prolixa e usar poucas palavras. Jamais conseguiria controlar o volume de letras derramadas perto de você. Então, o melhor a se fazer foi deixar os ensinamentos de Clarice para quando estivesse preparada. A opção talvez fosse mesmo começar pelo básico, pelo autor da história de amor mais conhecida: Shakespeare.
Claro, a consciência inicial era de que jamais seríamos Romeu e Julieta. Por diversos motivos. Não tenho um terraço, nossas famílias não se conhecem (por isso não se odeiam) e você não me ama. Mas William me ensinou algo simples: jamais poderia exigir o amor de ninguém, apenas dar boas razões para que gostem de mim. Era isso.
Shakespeare parecia estar falando de doçura, meninice e beleza. Mas você nunca se impressionou com os quadros que pintei, com as frases que falei e com a maquiagem que discretamente coloquei. Abandonei o clássico, me desiludi e me dediquei aos ensinamentos de Bukowski.
Ele não esperou muito para me esbofetear dizendo que o amor é um tipo de preconceito. Até gritou que eu estava amando o que precisava amar, o que me era conveniente. Chegou a me convencer que seria impossível amar uma só pessoa enquanto há dez mil outras no mundo. De fato, resolvi conhecer as outras.
Não deu certo.
Narrador Personagem, Infelizmente.
Há 12 anos