segunda-feira, 7 de outubro de 2013

msm


o mesmo quarto, as mesmas paredes verdes, o mesmo ventilador mal calibrado.
o mesmo horário, o mesmo jeito de acordar, "vem, filha. você vai se atrasar".
o mesmo banheiro, o mesmo chuveiro, o mesmo reflexo no espelho.
o mesmo motorista, o mesmo trocador, o mesmo ônibus.
o mesmo trajeto e o mesmo destino. 

chato viver assim
sabendo o que vai acontecer

os mesmos bom dia, zé, os mesmo silêncios
a mesma coisa
entende?

domingo, 8 de setembro de 2013

De repente.



Eu me apaixono fácil.

Certa vez, me apaixonei só de vê-lo dançar. Durou 3 anos e depois passou – parecia chuva de verão. Já quis namorar uma música, mas percebi que não seria possível no momento em que acabou – foram ótimos dois minutos e quarenta e oito segundos.

Por 2 ou 3 meses, houve um menino espanhol em minha vida. Quando nos víamos, quase não conversávamos. Mas todas as noites eu me despedia e ele dizia “boa noite, Wendy”. Conquistou meu coração.

Outro dia mesmo, o levantar de sobrancelhas despertou paixão e o sopro torto de fumaça me fez sorrir. Eu queria poder controlar isso tudo. Mas é impossível não se apaixonar por um beijo demorado, um mexer de ombros envergonhado ou um presente inesperado.

Dois amigos já me dividiram. Ganhei um casaco feito por uma avó que não era a minha. Entrou para o ranking das coisas mais lindas que recebi de surpresa. O outro me deu um Kinder Ovo. Apaixonantes.

Sotaques também me ganham. E o dos gaúchos estão em disparado. O meu primeiro deitou de bruços e falou sobre a ex. Foi lindo conhecer a vulnerabilidade de alguém. O segundo disse que amava Novos Baianos. O terceiro me chamou de guria e me derreti ao fim da palavra.

Não posso esquecer daquele que não fez nada mais do que existir. Inventei toda uma personalidade e me apaixonei. Já quis casar com uma cidade, tirar a roupa para uma frase bem colocada e abraçar um jeito de mexer no cabelo.

Paixão não é nada muito rebuscado. Não a reservo para poucos, apenas deixo vir. E ela vem. Pode ser em forma de sorriso, de brilho nos olhos. As mais avassaladoras descompassam o coração. E o meu descompassa fácil.

Existe também o desapaixonar, mas eu nunca lembro os motivos.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Notas em um papel de pão


LEMBRETE: preciso parar de cultivar coisas ruins! Deixar de lado esse negócio de navegar pelo Facebook só para ver se ela engordou, errou a mão no corte de cabelo ou, até mesmo, se tem menos curtidas do que eu no comentário sobre o fatídico cotidiano. Isso é insegurança, diria meu terapeuta, se eu tivesse um. "Yzadora, você precisa trabalhar mais a confiança em si". Gente, nem minha mãe confia em mim. Posso parecer inofensiva, mas continuo cultivando coisas ruins.

O que me conforta é que todo mundo já fez algo condenável. Aposto que 9 em cada 10 pessoas já colocaram mais comida do que aguentavam no prato e depois tiveram que jogar fora. O décimo entra na estatística dos que morrem de fome. E, digo mais, com certeza, 86,7% da população já teve uma pegação forte com alguém e se arrependeu depois. Normal, todo mundo já fez algo condenável.

O engraçado (no sentindo negativo da palavra) é que continuo me sentando de frente pro mundo para praguejar quase tudo. Sentencio mil e uma penas para os que julgo como errados. Desculpa, universo, devo parar de fazer isso também. Estou vendo a hora em que todos os astros se voltarão contra mim. Será o fim dos tempos, pelo menos do meu.

Não posso esquecer, então, de: parar de mentir e de prometer coisas que não mudarão em nada o curso natural das catástrofes. O mais sensato seria parar de comer fritura, me inscrever na natação, assumir que não gosto tanto assim da Clarice Lispector e nunca mais ficar com homens compromissados.

sábado, 9 de junho de 2012

Zé Vida, Zé Morte


Pobre, viado, macumbeiro e maconheiro. Era tudo do desprezível em uma pessoa só. Bagagem demais pras costas cansadas, é ser humano demais em um corpo divino. Eu deveria sentir pena, mas só consigo achar natural. Vida. Morte. Não é pra isso que viemos ao mundo? Viver para morrer? Alguns apenas decidem parar de enrolar, parar de acordar cedo, tomar banho, comer, pagar o aluguel. Alguns decidem o fim. Sortudo é aquele que sabe escolher o fim.

Ex-presidiário, ex-cristão, ex-traordinário, ex-querda. A gente só entende o sentido quando muda a direção, quando anda ao contrário. Se for pra ser livre, só sendo preso pra entender a liberdade. Se é pra abnegar-se dos pecados, só pecando pra receber o perdão. Pra alcançar o extraordinário, é preciso ser ordinário. Pra chegar do lado esquerdo, tem que passar pelo direito. É tudo assim: dual – com dois lados. Sim e não, bom e ruim, grande e pequeno, vida e morte.

É preciso perder pra dar valor, não é isso? Ele perdeu. Perdeu emprego, perdeu família, perdeu amigos, perdeu esperança, perdeu o equilíbrio, perdeu-se de si. É engraçado quando a pessoa só quer achar e só faz perder – a gente sabe que é sem querer. Mas de tanto negar o querer, acabou querendo. Ele quis parar de sorrir, parar de abraçar, parar de cantar, parar de se entregar, parar de se expor, parar de viver.

Sem teto, sem foda, sem santo, sem droga e, agora, sem vida. O Zé Ninguém, virou o Zé Suicida. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Suburbanada.


Queria ter muitos motivos para odiar o subúrbio. Eu tenho, mas ainda são poucos. Poderia listar, no máximo, uns trinta. Começaria, claro, reclamando da desfavorecida disposição geográfico. Não tem praia, as montanhas não estampam cartões postais e parece ter sido climatizado para que o diabo se sinta em casa. Dentre os motivos o barulho do trem e o ponto de ônibus suado não ficaria de fora. Assim como as extensas filas na padaria.

As coisas ruins que acontecem abaixo da cidade (nesse tal de universo sub-urbano) estão aí. Todo mundo ouve falar. Chico Buarque mesmo compôs alguns versos sobre casas sem cor e ruas de pó - cidade que não se pinta e não tem vaidade. Quando eu era uma adolescente rebelde, ouvi esta música e senti raiva. Andava pelas ruas da Zona Sul sonhando com o momento no qual esbarraria com Chico  e diria: "vá à merda".

A verdade é que fiquei puta por não me enxergar dentro daquela música. Afinal, não era cabrocha, não frequentava roda de samba e nem andava nas quebradas com exus (muito menos). Ali, comecei a tentar definir melhor o saudoso subúrbio. E, a cada nova percepção sobre o lugar, mais longe dele me sentia. Passei a odiá-lo e compreender Cristo Redentor por estar de costas. Estava inconformada com livrarias de best-sellers e auto ajuda , com locadoras de esquina recheadas de blockbusters e com as pessoas - as quais julgava medíocres.

Achava o cúmulo devotas tocando de casa em casa pra semear a palavra do Senhor. Descrevia de forma pejorativa beatas e mais beatas que liam a Bíblia no sacolejar do ônibus, e que prendiam seus cabelos em rabos de cavalo contidos pra falarem mal das vizinhas de shortinho. Pra mim, tudo era um grande retrato da hipocrisia. Criticava também as tais de shortinho, que não valorizavam seus corpos e cultuavam o obsceno – como se já não bastasse o lugar.

Encabecei um estudo (quase-que-monográfico) de “A rotina das vítimas de uma atitude suburbana”. Nele, era indicado por hábito: se apoiar na janela e fofocar da vida do vizinho, pendurar roupas na varanda do prédio, abrir o porta-malas do carro na esquina de um bar e colocar música alta, criticar a desquitada, apontar o corno manso e chamar lojas de conveniência pelo nome do dono (vou ali no Seu Manel, aqui no Rogério e lá no Luizinho).

Talvez tenha passado dois anos tomando nota para criticar o subúrbio e as pessoas que aqui moram. De repente, notei que sempre olhei querendo não estar. De forma superficial e soberba, por algum motivo, me achava superior e entendedora. Tendo a atitude suburbana, criticada por Lima Barreto, de querer ser como a Zona Sul – cheia de gente bronzeada, senhoras e suas blusas de botões dourados, crianças dando a mão às babás de branco e senhores sustentando barrigas enquanto refletem sobre a politomia social.

Acordei um dia e, sem perceber, passei a achar bonito ver a dona de casa varrendo a calçada, os azulejos com desenhos de santo em cima das portas, o pagode descontraído dos bêbados de sempre e a devota que me perguntou se eu sabia quem era Jeová. Tudo passou a ser engraçado, mas o engraçado que não é de rir.

Passei a gostar até do vassoureiro que anda na rua vendendo vassoura de tudo quanto é tipo, com aquela voz grossa e medonha.  Só no subúrbio ainda tem o cara que conserta panela dentro do carro, o que sai de bicicleta vendendo cuscuz, e o que grita “pamonha quentinha” pelas ruas andando à 5km/h.

A feira não é hippie, de antiguidades ou orgânica. É feira mesmo. Fede à peixe morto, tem muita gente gritando,  carrinhos se atropelando, madamas de bobs e lenço no cabelo, barraca que vende pião, bola de gude e pipa. Há alguns anos, tinha eu puxando meu avô pra conseguir comprar um peixe no saquinho, ao lado da barraca de ervas. 

Nunca fui de soltar pipa, mas me lembro de correr atrás delas. Até hoje, os milhares de fios de telefone pendurados nos postes estão enroscados com as marimbas de linha e pedra. Sem falar nas chuteiras que também estão drasticamente presas nos cabos de luz, em um nó tão complicado que seria pouco chamá-los de nó.

Isso tudo é bonito. É bonito demais ver como as pessoas acordam cedo todos os dias para encarar o empurra-empurra do trem, metrô e/ou ônibus. Ver que apesar do percurso amassado ele vale por alguma coisa, seja qual for, no final de semana, no final do dia e, principalmente, no final do mês – ah, e no final do ano com o queridíssimo Décimo Terceiro.

Depois que comecei a entender o propósito disso tudo, me senti parte. Parte do homem que segura a mochila da menina pra puxar assunto na condução ou do que finge que está dormindo pra não ceder o lugar na volta do trabalho. Parte da mulher que está com o cotovelo doído de tanto se apoiar na janela pra espiar a festa do vizinho ou do festeiro que liga o pagode no máximo, lota a rua de fumaça com cheiro de linguiça e bebe cerveja com a rapaziada até a última mulher parar de sambar. Parte da senhorinha que veste a saia longa e anda nas ruas tocando as campainhas para pregar ou da pessoa que atende o interfone e dispensa a palavra de Deus porque precisa prestar atenção na receita da Ana Maria Braga. Parte até do bicheiro que fez amizade com meu avô (os dois agem como se isso fosse normal – e é).

A verdade é que acordo quando nem o sol acordou só para evitar o trânsito e não chegar atrasada. Assim como a maioria das pessoas por aqui. Pego mais de uma condução, não vivo sem meu bilhete único, compro sacolé por 1 real todo final de semana ensolarado, chamo as pessoas de Maria da esquina, Zé do churrasquinho, Reinaldo do bar e Luís do jornaleiro. Assim como a maioria das pessoas por aqui.

Eu posso passar mais dois anos querendo catalogar mentalmente todas as coisas tipicamente suburbanas, afinal, a vida é feita de generalizações e estereótipos. Só que agora eu faço parte deles.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

É isso, sou isso.

Agora, sozinha no quarto, encolhida em um canto, percebo que estou fadada a ser pra sempre mulher. Mulher do padeiro, do pedreiro, do governador, do vizinho, da vida. Mulher de ninguém, mulher de mim mesma. E é sendo o que sou que um dia deixarei de ser o que jamais quis: uma, mais uma. Afinal, o que todos querem é deixar de ser mais do mesmo.

Agora, sozinha no, deixo o cigarro queimar a ponta dos meus dedos e a carne de meus lábios. Faço o que quero com meu corpo, com meu rosto, com meu espírito. Se é que existe algo além da matéria, algo além desse inferno que é estar aprisionada em quilos de carne e litros de água. O que me faz mulher não é ser o oposto de homem.

Agora, sozinha, consigo ouvir nesse vazio quieto o som do sangue que corre e dá voltas, voltas, voltas e mais voltas. Ainda estou fatalmente viva. Viva e nada mais que isso.Todos os dias meu corpo faz as mesmas as coisas sem parar. O coração bate, meus olhos piscam e meu cérebro pensa.

Agora, percebo que não dá pra querer não existir. Naquele momento, eu não posso fingir que estou em outro lugar. Ali, não dá pra me colocar em outro corpo, me retirar do meu. Estou fadada a ser mulher. Fadada a ser sua, ser do outro, ser de quem pagar para que seja. O que me faz ser mulher é você querer que eu seja.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Até tentei.

Eu acho que amo você. Não sei quantas vezes ensaiei esta confissão. Tentei de forma direta, fingi estar conversando normal e falar do nada... Até comecei a ler poemas – poetas sabem amar, ou, pelo menos, sofrer por amor.

Lá fui eu seguir os conselhos de Clarice Lispector. Não precisei de muito para perceber o quão difícil seria ter a alma prolixa e usar poucas palavras. Jamais conseguiria controlar o volume de letras derramadas perto de você. Então, o melhor a se fazer foi deixar os ensinamentos de Clarice para quando estivesse preparada. A opção talvez fosse mesmo começar pelo básico, pelo autor da história de amor mais conhecida: Shakespeare.

Claro, a consciência inicial era de que jamais seríamos Romeu e Julieta. Por diversos motivos. Não tenho um terraço, nossas famílias não se conhecem (por isso não se odeiam) e você não me ama. Mas William me ensinou algo simples: jamais poderia exigir o amor de ninguém, apenas dar boas razões para que gostem de mim. Era isso.

Shakespeare parecia estar falando de doçura, meninice e beleza. Mas você nunca se impressionou com os quadros que pintei, com as frases que falei e com a maquiagem que discretamente coloquei. Abandonei o clássico, me desiludi e me dediquei aos ensinamentos de Bukowski.

Ele não esperou muito para me esbofetear dizendo que o amor é um tipo de preconceito. Até gritou que eu estava amando o que precisava amar, o que me era conveniente. Chegou a me convencer que seria impossível amar uma só pessoa enquanto há dez mil outras no mundo. De fato, resolvi conhecer as outras.

Não deu certo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Certeza.

Complicamos a vida. Porque não conseguimos viver sem quaisquer problemáticas. Precisamos de dúvidas insolúveis, de dramas mexicanos, de óperas greco-romanas, de filmes apocalípticos. Precisamos nos sentir úteis ao resolver problemas – aqueles que nós mesmo fizemos questão de inventar. Talvez demore gerações, melhor será. Amores não correspondidos, guerras. Um amontoada de invenção humana.

Jamais entenderei o porquê de estarmos aqui. Nós dois. Por que estamos colocando tantos pontos interrogativos em algo tão sublime. Você não entende, não precisa. Não quero. Bonito é não entender. Imagine se todos soubessem desde o princípio sobre o fogo, sobre o roda, sobre a morte. Imagine se o mundo fosse isento de todas as dúvidas. O que seria dos Deuses?

É lindo. Não existe nada mais incrível do que ter estrelas brilhando no céu. Veja você, como seria mágico não entender o motivo. Em algum lugar, em alguma dimensão, crianças estão sentadas agora inventando histórias sobre o escurecer do céu, sobre o brilho das estrelas, sobre o calor do sol. Quão mágico seria.

Magia nunca foi o nosso forte, e você sabe disso – tem certeza.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Querência

Eu sou o que imagino ser
Serpente
Serpentina
Ser humano

Sou nuvem que apaga sol e faz chover
Molho
Alago
Depois deixo escorrer

Pareço ser o que jamais seria
Cama arrumada
Beijo apressado
Louça na pia

Você é o que eu quero
O que só eu sei querer
Manhã no sítio
Grama molhada
Entardecer

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Conversa quase-introdutória

A gente precisa conversar. Senta aqui do meu lado e tenta não olhar nos meus olhos. Preciso falar algumas palavras tortas e mal formadas. Prematuras e apressadas. Está acontecendo um imprevisto entre nós dois – um devaneio matutino, uma busca sem sentido.

Não me pergunte o que acho disso, se preciso, se quero ou se devo. Apenas ouça. Escute cada fagulha de pensamento e depois mude de assunto. Podemos falar sobre cinema francês, música britânica, literatura latina, gastronomia italiana e beleza americana. Mude de assunto como você sempre faz. Transforme todas as minhas confissões em simples emaranhado de letras mal costuradas.

Talvez seja melhor não. Só assim evitarei sua testa franzida.

sábado, 9 de abril de 2011

Ninguém quer

Haviam corpos deitados no chão e só eu os via. Uma mulher abraçava as pernas para não perder parte da única coisa que lhe resta: seu corpo. Estava nua, completamente crua. Sentada no tapete popular quente e insano. Pés pisavam, mãos balançavam e olhos olhavam – sem sentir, pender e ver. Ela estava ali, estendendo todo seu sofrimento mudo e ensurdecedor.

Permaneci por alguns minutos encarando todos os detalhes. Vi a pele negra surrada, as unhas encravadas e os olhos amedrontados. Quis sentar ao lado do vulnerável, mas me mantive presa ao meu chão – tão perto e tão distante. De repente, uma voz impaciente quebrou o silencio que fiz questão de manter.

“Lucia, levanta do chão. Está todo mundo olhando!”

Desviei minha atenção para voz e dei de cara com uma mulher loira e branca - quase angelical, se não fosse pelas sobrancelhas unidas e sisudas. Os cabelos estavam angustiados em forma de coque e tinha olhos consolados castanhos. Na camisa, uma nomeação: soldado de Jesus. Enquanto percorria novos detalhes, fui interrompida por Lucia.

Ela havia descruzado as pernas, deixando a feroz intimidade invadir os passivos que por ali estavam. Fui invadida pela vontade de tirar as roupas e impedir que aquilo tudo estivesse acontecendo. Quis roubar um pouco da verdade que estava sendo loucamente despejada do corpo inquieto e despreocupado. Mas outra voz cortou meus pensamentos.

“Coloca uma roupa nela”

A ordem saía da boca carnuda de uma negra parruda. Sufocada por uma blusa tom mustarda e caminhando curto com a saia marrom. Ela estava ao lado do soldado, sem parar de apontar e desapontar Lucia.

“Ela não quer, senhora”

Aquilo tudo me incomodava de alguma forma. A negra continuava insistindo na roupa. Passeei com meus olhos a fim de encontrar o céu e no meio do caminho me deparei com uma placa pregada na base militar do soldado. Letras gritavam: “Pare de sofrer”.

“Ela não quer, senhora”

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Relacionamento maduro, com referências imaturas.

Em uma quinta-feira, quero ser levada para jantar. Sentaremos em uma mesa para dois, com a toalha branquinha. Das duas taças, só a de vinho estará cheia. Nos pratos, a ave ornamental ao molho pardo. Você sorrirá ao me ver colocar o cabelo atrás da orelha. E eu colocarei sempre o cabelo atrás da orelha para te ver sorrir. Os garçons dançarão ao nosso redor, as pessoas pomposas mastigarão animais e não estaremos nem aí. Estaremos ali.

Você pedirá a conta e pagará com o cartão de crédito prateado. É óbvio que não teremos dinheiro para pagar a vista. Seremos apenas dois pé-rapados no mundo. Mas você se oferece porque diz adorar pagar em parcelas – “é como se tivesse jantado desta forma todas as cinco vezes, entende?”. Acharei esta desculpa um máximo e terei certeza de que você é a pessoa mais incrível que eu tenha conhecido.

Meu fusca estará estacionado do outro lado da rua e sua bicicleta presa em um poste afastado. Você pedalará na velocidade da brisa fresca, se afastando mais e mais do carro que larguei na calçada. Enquanto meu cabelo solto se desmancha, as estrelas tentarão alcançar-nos (em vão).

Chegaremos justo na hora em que a noite vira madrugada. Será dia de irmos para o meu apartamento (é mais perto). A sala estará escura e, depois de se jogar no sofá, você ligará meu abajur de luz amarelada. Beatles? Não, vamos estar envinhados demais para o quarteto. Nossos ouvidos clamarão por solos, e o B.B.King começará a dar voltas na vitrola. Eu sentarei em cima de um livro do velho Buk. Você o tomará de minha mão e lerá um trecho de uma página qualquer – um cheio de bucetas, gozadas e sujeiras.

Riremos, lembrando de como era divertido ler Bukowski quando se tinha 17 anos. Era como estar subvertendo tudo ao mesmo tempo. Entraremos em um papo nostálgico com cheiro de canela e café quente. Estará frio lá fora e a guitarra do disco ainda estará solando. Você colocará meu cabelo para trás da orelha e eu sorrirei precedendo o beijo.

Beijaremo-nos como se todas as mentiras fossem verdades e vice-versa. Sua mão quente abraçará meu pescoço, que passou a noite a sustentar o vazio. Não falaremos nada. Meus dedos vão percorrer caminhos conhecidos como se fosse a primeira vez. A minha primeira vez, a nossa. A sua jamais. Vou misturar o seu gosto de café e vinho ao pouco de canela que guardei no chão da sala.

Nossa madrugada não perceberá o lado A do disco acabando, a luz do abajur esquentando, o contato macio da pele suada e o sol amarelando o céu. Você dirá baixo no meu ouvido que o dia já amanheceu – eu escutarei e só. Nossos corpos se levantarão e se envolverão em uma roupa beirando a seriedade.

Em uma sexta-feira, eu imagino como teria sido um possível ontem.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ser ou não ser.

Eu sou do mundo. Sou daquele que sorri ao me ver passar. Reservo-me em ser de cada instante percorrido. Quisera eu poder ser de nada, de ninguém. Mas sou apenas mais um pertence. Um colar que penduram no pescoço, um olhar que pisca rotineiramente, uma gota.

Não ser para ser livre te faz capaz de ser mais do que seria. Eu pertenço aos planos, aos desejos sórdidos, aos sorrisos falsos. A vida nada mais é do que pertencer aos momentos que te pertencem. E todas as vezes que me algemo ao presente, noto que minha cadeia será sempre o futuro.

Estou presa e condenada a pertencer ao tempo, ao mundo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A clara escuridão da sobriedade embriagada.

Ontem dormi.

Não existe mar, não existe terra. Na falta de horizonte, o sol se põe azulado entre bigodes risonhos. As flores espalham sementes nas mãos siderais. Em um sopro estelar, passarinhos sobrevoam os caminhos coloridos escorridos. Cantam, pois não querem clamar. Eu sou gota amarelada de um copo quebrado e bêbado. O vidro reflete o recente buraco remoto negro. Tiro o paletó e entro no barquinho. Festa de sol na lua.

Geia me perguntou baixinho se eu existo. Não respondi, a música estava alta. Sete pecados discotecam a psychomachia. Urano me enviou um bilhete no guardanapo invisível. Agora sou vice-rainha do universo. Minha castidade é menor do que a luxúria. Mas minha luxúria não é maior do que a temperança. Notas sonoras cutucam meu ouvido surdo. Amplificadores planetários tremem a escuridão.

Moro nos montes, nos rios, nas fontes. Moro na gruta mais bruta que uma fruta. Possuo poderes e um deles é adiantar meses. Dentro de dois mil e doze tics e tacs pontuais, Tonatiuh beijará Metztli. Afinal, não existirá mais ninguém para impedir. Você tem medo? Eu também. Mas é no medo que olhos se fazem fortes e enfrentam a realidade.

Hoje acordo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Como você está?

Eu estou ótima
Por mais que as flores do meu jardim sejam apenas flores
As mesmas de qualquer um
Não ligo para o que estão cochichando por aí
E sim para o que estão espalhando
Sou daquelas que se fazem entrar por um ouvido
E sair pela boca

Eu estou bem
Os três ponteiros e o tic tac não me consomem fácil
Eu os consumo todos os dias
Otários
Ninguém é de ninguém
Só de si mesmo

Eu estou indo
Entre bons e maus bocados rascunho a vida
Sem pretensão alguma de estar certa
Apenas de viver
E ser vivida

Eu estou de mal a pior
Rastejo todos os dias para o juízo final
E, lá chegando, rio
Rio como se fosse a última vez
Com tudo que me resta

Eu estou assim
Oscilando
Sendo

Não é assim que as coisas deveriam ser?

domingo, 13 de junho de 2010

Com todo sentido possível.

Contemplei o pôr-do-sol, sentada em um tijolo. Daqui, percebo que o infinito não está longe, é só virar a primeira direita. Não faz muito tempo desde a última vez que mudei. Esta é uma das coisas que ainda pretendendo entender. Detenho-me ao sopro, assim, vejo ir embora.

Tiro os pés do chão toda vez que me acho capaz de levitar. O tijolo me prende. Ainda. O esconderijo cintilante guarda abraços e desprezos. O único ainda fiel. Não dou a mínima para os três corridos ponteiros. Bolas de sabão superam-se sozinhas. As observe estourando.

A noite deita em cachos simétricos. Duas estrelas rebeldes ainda me mantêm imóvel no bosque movimentado. Ouço teorias complexas na brisa musicada em dó, cheia de dó. Fiz questão de acompanhar todas as notas em um agradável chá.

Trouxe rapidamente o frio até meus ombros descobertos e vulneráveis. Esperei o quente confortante, que, distraído, dormiu. Sonhos sussurravam apoiados em mim.

Amanheceu e o que ainda tenho para oferecer é um tijolo: meu passado.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Não, sim.

Eu não pedi para ser assim
ainda chego em casa e largo minha bolsa no chão
dou três ou quatro goles na garrafa de água
e parto para o banheiro

Quando olho no espelho a única
coisa que penso é que
não pedi para ser assim

Caminho até os discos e escolho
cuidadosamente só um
isso tudo enquanto
a voz da Rita soa no roda
roda musical

Passo os dias indo e vindo no chacoalhar
de um ônibus qualquer
Acordo quando meus olhos abrem
e durmo quando eles decidem
fechar

Não pedi para ser assim,
mas é
e sou

domingo, 30 de maio de 2010

Saindo da caverna

Você se acha esperto demais. Mas imagine só: você não sabe de nada. Nem eu, nem ninguém. A vida é muito mais, muito mais, do que isto. Muito. Muito mais. Quando te vejo deitado na sua cama de medo curtindo o conforto, sinto vontade de correr para longe. Bem longe. Até quando nós vamos viver nos escondendo? Se você me der uma data certa, consigo esperar até lá. Diga-me, ou faça isso parar. Agora.

Cinco, quatro, três... O relógio começou a andar ao contrário. Como vamos sair daqui? Não tem saída! Pelo amor de todos os santos daqui e de lá, me tire daqui. Vai, corre também. Está me escutando? Olha pra mim, eu consigo tirar a gente daqui. Confia. Confia. Cinco, quanto, três.

Confia. Abra os ouvidos, de alguma forma você conseguirá me escutar. Abaixe esses braços, não levante as mãos para o céu. Que céu¿ Estamos aqui. Presos a terra. Somos as raízes, deveríamos ser árvores. Estamos cada vez mais entranhados, precisamos sair daqui!

Cadê você? Pare de se esconder atrás do passado. Tem muito mais pela frente. Muito mais. A nossa vida não acabou, não vai acabar nunca. Solte minha mão. Você está presa demais. Não vou conseguir te tirar daqui. Eu sei, vou me salvar sozinha.

Você não vê saída? Eu vejo.

sábado, 29 de maio de 2010

Assunto importante

Esta será a última vez que falo de amor.

















Porra!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Parabéns, este é teu presente.

Hoje acordei com um bolo avisando que tenho 30 anos. Muitas pessoas (cinco) batiam palmas, aplaudiam sei lá o quê. Eu estava deitado, e olhei tudo do ângulo mais desfavorecido possível. Todos estavam com gogó grande, quadris largos e céus da boca profundos. Aquilo me fez lembrar de outro bolo, mais gentil, que contava bem baixinho sobre meus 8 anos bem vividos. Minha mãe, meu pai cantavam sussurrando e Lucy desbravava meu rosto com sua língua canina.

Ai, que primavera maravilhosa. Acordei com um afago na cabeça e por uma fração de segundos vi o dia ensolarado. Uau, eu estava fazendo 8 anos, meu quarto era azul e nada me deixava mais contente do que ver o He-man enorme do lado do meu espelho. Eu esperava ganhar o Pégassus. Um carrinho dourado de controle remoto. Não ganhei, já vou logo adiantando.

Meu pai abriu um sorriso largo e disse: “Filho, teu presente está te esperando lá fora.” – ótimo. Joguei a coberta do Mickey longe e corri até o jardim. Nada me esperava lá fora, a não ser grama, uma macieira, na qual meu pai vivia se gabando por ter, e uma bola jogada no canto direito, perto do muro. Fiquei uns 10 minutos, sem exagero nenhum, gritando e procurando o presente – enquanto meus pais riam da porta de casa.

Eu diria hoje que aquele riso todo foi desnecessário. É muita sacanagem fazer isso com um moleque de 8 anos, cheio de ansiedade correndo na veia e sem os dois dentes da frente. Eu já estava emocionalmente abalado, uma seqüência de risadas era o que menos precisava.

Minha mãe finalmente resolveu cessar meus gritos desesperados de “cadê, cadê, cadêêê” e apontou para a macieira dizendo que ela era meu presente. Isso mesmo, eu havia sido presenteado com uma árvore. Uma bonita e robusta árvore. Macieira. Entendeu? ÁR-VO-RE. Olhei atônito para meus genitores e recebi de volta olhos ternos como quem diz “E aí? Gostou?”

Caminhei fincando meus passos no chão até o presente e, com toda minha fúria infantil, o chutei. Quebrei o dedão. Enquanto eu gritava de dor e desapontamento, meu pai corria até mim. Passei a manhã no hospital de pijama, e voltei com o dedo enfaixado. Passei a tarde inteira no meu jardim olhando para árvore e imaginando por que meu pai havia tido a infeliz idéia de me dar aquilo. “A macieira nem dá maçã direito”, pensava entre as lágrimas grossas.

Hoje estou aqui, olhando para as palmas de Júlia, Paulão, Roberto, meu pai e minha mãe. Paulão e Roberto são meus vizinhos no prédio. Júlia é minha prima que mora comigo aqui na capital para estudar artes cênicas. Meu pai e minha mãe... Bom, eles são, respectivamente, meu pai e minha mãe. Depois de 22 anos percebo que deveria ter dado valor àquela árvore no exato momento em que a recebi.

Ela foi minha confidente por anos, dormia comigo depois de ter lido em voz alta livros e mais livros sobre homens e mulheres que sofriam e amavam, me olhava todas as vezes que eu chegava em casa e era nada mais (muito mais) que uma árvore. A minha árvore que se perdeu no cotidiano.
Queria a Lucy me lambendo o rosto, o He-man me olhando e a macieira no jardim nessa primavera maravilhosa. Mas meu passado não será nunca meu presente.